Uísque, barco e governo

Luiz Roberto Benatti

Um litro  de Ballantines curtido em tonel de carvalho por 12 anos custa de RS$ 101, 54 a 132,00 ou 28,50 euros. Quanto custaria um governo municipal de 12 anos ou 3 mandatos?Que os escoceses nos livrem do pesadelo!  Você pode sorver numa noite de solidão domingueira duas doses de uísque, Frank Sinatra na velha vitrola, frio intenso na rua.Você pode e deve fazê-lo. No entanto,  como é que você poderia fazer  a digestão de governos contraditórios, administrações apaixonadas por si mesmas que, se forem criticadas, erguem a saia rendada, batem o pé no assoalho de tábuas, perdem o compasso e dançam maxixe em vez de tango?Sejamos coniventes: no peito do desafinado também bate um coração. Bate?O termo irlandês para uísque é uisce beatha, espécie de água benta ou água da vida sem a qual não haveria filme de faroeste.Entre um assalto e outro à diligência, o que é que o bandido vai fazer? Quanto custa a água da vida que sai da torneira do seu mocó? Você foi consultado para saber por que a administração deveria substituir o hidrômetro antigo pelo novo? Para onde levaram o velho?Em grego,do timoneiro ou condutor do navio, diz-se  gubernauta/governauta/governante/governo.Sabia que governo tem a ver com mar, o mare dos meridionais, thalassa dos helenos?Quando amam o mar os pescadores cubanos o chamam de la mar, fêmea marinha, iara caribenha, corpo de água salgada.   Tanto o timoneiro quanto a marujada do navio gostam de bebericar uísque, para se aquecer no vento polar quando a embarcação oscila e parece querer ir a pique. Para os gregos, a direção do navio deveria ser entregue ao homem experimentado, destemido e com senso absoluto de liderança.Nada de fricotes.  Nenhum desses atributos deveria faltar ao capitão tarimbado, musculoso e de  cabelos prateados.Quando o timoneiro ensandece, ele faz como Ahab, de Moby Dick, que, ao perseguir de modo implacável a baleia assassina,trocou o senso de realidade pela fantasia e se perdeu de si mesmo.  Em vez de administrar uma vila, o capitão administra o navio, hábil o suficiente para conduzi-lo a porto seguro e entregar carga e homens sãos e salvos. Você não atravessa o Atlântico num barco minúsculo nem vai só. O barco aderna nas primeiras horas de tempestade, você perde as forças físicas, o espírito declina em sua fé, as mãos calejadas sangram, o remo parte-se em dois pedaços, o sol queima-lhe os olhos. Nem mesmo o conforto duma boa dose de uísque você encontrará no piso da casca de noz. Cruze os braços, fique quieto, conecte-se com um quásar  distante  milhares de anos-luz para além do imaginável. Água que dessedenta,  água que nos livra da lama,  água congelada na cauda do Halley,  água que virou pó na Lua,H2O não é pó, dê-me um copo d’água,não quero o vinagre do filisteu,  não me negue o que não é seu nem nunca será.Não.

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