30 anos depois Alex Ratton Sanchez volta a CTV

Luiz Roberto Benatti

Há pessoas azedas que se perguntam sobre o significado dum movimento na dança e juram em cruz que dominam de A a Z a enciclopédia do futebol, porque, sem qualquer dúvida, o gol deve ter sentido (qual seja não sabemos), tanto é verdade que pessoas se matam por ele e por ele cometem homicídio. O “Lugar do outro” que a companhia de Alex Ratton trouxe a CTV poderia ser também o lugar do mesmo, alguém talvez que sente muita dor na omoplata, angina, talvez; que se desloca daqui para lá sem se achar em lugar algum, porque o topos do diretor é a-tópico, mas não necessariamente u-tópico. O espectador senta-se numa cadeira colocada num estrado móvel empurrado pelo diretor e seus auxiliares: humildade e esforço físico. Há uma névoa cinza-azulada que recobre a paisagem vazia. Os corpos derruídos cutucam fragmentos de memória e o espectador se lembra de que poderia ter estado num campo de concentração, cujos arames farpados vêm dum piano combinado com um cello bartokiano. À  batida seca no piano somam-se os ruídos procedentes do couro curtido dum tambor. Os estrados se deslocam, giram e regiram pela estranha geografia. A estranheza criada por Ratton é feita de pedaços semiconhecidos do cotidiano, assim como os seus silêncios dialogam com Satie. Ele não propõe que para as coisas haja um sentido imediato, muito menos que esse sentido possa ser relido por vozes oficiais. Parágrafos e incisos verdadeiros. A bailarina eleva as mãos para um  céu desabitado. Chove na gare e a chuva é introduzida na peça. O bailarino salta a grade e, no passo seguinte, retorna ao lugar inicial. Se o trem da morte passou por aqui, o melhor é não tomá-lo. Bartok/Satie/Satie/Bartok, até a carnavalização geral da companhia que não chora nem sorri de maneira escancarada. O lugar do outro é o lugar de ninguém. O mundo teria de ser reinventado, mas o arquiteto esqueceu-se de como se usam lápis e esquadro. Restam-nos a dança, o silêncio, corpos que se apóiam uns nos outros, a humílima condição humana não degradada, ainda que degredada.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.