Gide, o imoralista

Luiz Roberto Benatti

Há 122 anos, em 1891, Gide escreveu O tratado de Narciso. O livro é uma mijadinha literária, tão fino que não pôde ter lombada. Você o lê em 10 ou 12 minutos, mas seus eflúvios irão impregná-lo por muito tempo. Gide encontrou Narciso nAs metaformoses de Ovídio que foi buscá-lo nos gregos. Freud voltou ao tema muitas vezes, a tal ponto que se deu conta de que, sem o espelho, não poderemos viver, mas com ele algo em nós, por certo, irá morrer, quando não o morto seremos nós próprios. Por que gostamos tanto de nós mesmos independentemente de nossas reais qualidades cinematográficas? Depois de se fotografar na direção dum carro a 170 km/h, a moça jogou a imagem no instagram/orte, bateu contra uma mureta, arrebentou o automóvel e se matou. Se ela se amava, por que se matou? Por que nos perfumamos, vamos à manicure, ajeitamos o cabelo, enfiamo-nos em roupas de grife, quando, às 23 h da noite de sexta, entramos numa balada, bebemos até vomitar, desmaiamos e, assim semimortos, somos levados para a UTI? Dante, quase santo, escreveu que o amor nos conduz à morte. Ele pensava em Beatriz, nós pensamos em nós mesmos. James Dean gostava de si e se odiava e morreu num gravíssimo acidente de carro. Todavia, não foi ele quem se matou: seu carro foi atingido por um caminhão dirigido por um  maluco de pedra. Um grupo de mulheres mórmons posou para um calendário peladas como vieram ao mundo: umas são bonitas, outras feias de doer, mas todas elas gostam de si no espelho ou fora dele. O mundo quer se ver e ser visto, ainda que nossa vida, amanhã ou depois, se troque pela morte.

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