CANTORAS DO RÁDIO

                       Sérgio Roxo da Fonseca

O meu amigo Rubão David chamou minha atenção para o filme “Cantoras do Rádio”, dirigido por Gil Baroni e Marcos Avellar, protagonizado por Carmélia Alves, Carminha Mascarenhas, Ellen de Lima e Violeta Cavalcante.

            Trata-se de  documentário de uma época, portanto, tenta fugir do mundo da fantasia para se aproximar do mundo supostamente real. O Brasil é um país pobre em documentários. O filme é extraordinário quer por ser um documentário, quer pela seriedade emprestada ao tema.

São vários os instrumentos atuantes para dar um rosto ao povo brasileiro, contribuindo assim, de maneira decisiva, para unir  território mais extenso do que a Europa. A religião cristã, o Exército Brasileiro, a rede bancária circulando com uma única moeda serviram de forte cimento da nacionalidade.

Durante a primeira metade do século XX, o rádio contaminou quase todas as casas, de tal sorte que os seus habitantes, os cantores e radialistas passaram a ter um caráter mitológico. Com certeza, o aparente confronto entre a Emilinha Borba e a Marlene foi tema de todos nós. Soubemos que a guerra havia acabado pelo Repórter  Esso. A novela “Direito de Nascer” teve uma atração quase religiosa tanto que toda a família diariamente reunia-se ao lado do rádio para saber qual seria o destino da Mamãe Dolores e  Albertinho Limonta. Ou então  ouvia-se o programa “Balança mas não cai”,  ou se estava por fora do mundo dos vivos

Temo dizer que o rádio contribuiu de maneira muito mais decisiva para a estruturação da nacionalidade do que a TV que, quase sempre, transmite obras e notícias cunhadas nos Estados Unidos. Meus netos, certamente, sabem o que é “site” e “mouse”, muito provavelmente desconhecendo que a primeira palavra significa “sítio” e a segunda “rato”, como são pronunciadas em Portugal.

Em Ribeirão Preto tínhamos uma rádio. A PRA7, Rádio Clube que se “localizava “no coração do Brasil”. Mantinha programa de música clássica, programa de auditório, as dores e as alegrias dos jogos travados entre o Botafogo e o Comercial. É claro que veiculava também tanto o noticiário político como músicas sertanejas. Afirmava-se que era mais antiga do que a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. A de Ribeirão Preto era a PRA7 e a Nacional era a PRE8. A se admitir uma ordem sequencial, a nossa era, com certeza, mais antiga.

“Cantoras do Rádio” documenta aqueles tempos em que jovens e adultos cantarolavam músicas em Português ou em brasileiro, nas palavras de Noel Rosa. O rádio, até onde pode, tem sido um fortíssimo elemento para a constituição do caráter brasileiro do seu povo.

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