Reflexões de um caminhante solitário

Luiz Roberto Benatti

  1. A trilha, a mata, o riacho, o vôo rápido do pássaro, o recorte da nuvem são os últimos sinais românticos num mundo rural desaparecido. Onde houver matéria-prima ou natureza haverá mercadoria. Kaspar Hauser foi assassinado no bosque, Samuel Beckett foi esfaqueado no centro de Paris. Nada permanecerá imune à barbárie. Coberto de folhas secas, Siegfried tornou-se vulnerável da cabeça aos pés. Narciso não se vê mais nas águas sujas do lago.         
  2. Em Los Angeles, você não pode beber cerveja nos espaços públicos nem cruzar a rua fora da faixa do pedestre. No BBB, você bebe, pinta e borda, dança, come, grita, bolina à vista de 30 milhões de espectadores. Ninguém é roubado. Antes, pelo contrário, o usuário do 0300 credita na conta da Globo alguns caraminguás que, somados a outros, acumularam fortuna de 9 milhões de reais. No Egito, os escravos só ergueram as pirâmides porque tinham medo de perder a cabeça. Numa época em que Paulo Coelho  é grande escritor, o Alemão virou Brad Pitt.                                                                        
  3. A maioria das pessoas está convencida de que a televisão é a principal fonte de cultura de nossa época e que, consequentemente, o livro acha-se em decadência. No entanto, quando pode dar o melhor de si mesma, a televisão imita o livro, como é o caso da novela brasileira contemporânea inspirada no folhetim do século XIX.  
  4. Os ingleses instalaram 500 mil câmeras de vigilância nas ruas de Londres. Marjorie Boulos, velhota simpática e socióloga perspicaz, observou que a parafernália eletrônica não desestimulou a prática criminosa. Pergunto: Por que é que a máquina impediria o bandido de agir como bandido? Além disso, posso gostar de saber que me vêem  fazendo algo proibido. Os  tempos mudaram: Meneguetti fazia tudo às escondidas. Melhor seria se fosse como num motel, em que nos vemos fazer com nitidez cinematográfica o que de outro modo só poderíamos ver de modo fragmentário.
  5. É pena que grande parte dos filmes só exiba carros arrebentados ou troncos masculinos sarados, e não o fabuloso cinema italiano de Elio Petri. Investigações sobre um cidadão acima de qualquer suspeita e A classe operária vai ao paraíso tornaram-se títulos emblemáticos. No Brasil, p.ex., os operários não foram para o paraíso, mas os chefes mudaram-se de mala e cuia para o Planalto. Quanto aos insuspeitos, alguns cidadãos foram transferidos para as celas da PF de Brasília. O crime começou em baixo e ascendeu para o andar de cima, ou teria feito o caminho inverso? Caim não era obreiro: a máquina econômica do mundo só entrou em funcionamento depois da expulsão do Éden. Primeiro o ócio, depois o negócio.
  6. A palavra autoridade não existia no vocabulário grego. Trata-se dum nonsense absoluto: idade é um qualificativo e autor é a criatura que realiza algo. Por isso é que se diz que Pedro e Maria são autoridades em tal ou qual coisa, isto é, são autores qualificados para o exercício disso ou daquilo. Onde está o mando? Os romanos inventaram a palavra autoridade. Autoritário é o exercício de poder, físico ou simbólico, de quem faz uso da força. Mussolini foi autoritário, mas acabou enforcado pela multidão homicida.
  7. A fragilidade da escola diante do discente refratário à dose mais mínima de Cultura, assim como a multiplicação de ocorrências de crime urbano são cicatrizes do predomínio de valores plutocráticos sobre os de caráter subjetivo ou ético. Se a alma foi corroída pela ferrugem do dinheiro, tudo será possível, até mesmo a dor intimidada do pai diante do cadáver detonado por bala de fuzil  da filha insepulta.
  8. No Japão, o crime rural avoluma-se em proporções capazes de amedrontar população e polícia. Ao progresso, segue-se o crime: a melhoria duma estrada atrai grande fluxo de turistas à região. Os turistas têm carro e grana para ser roubados. Onde é que o velho samurai foi-se esconder?
  9. No papel de vândalos de fim de semana, os adolescentes depredam ou emporcalham prédios escolares, ao contrário dos bancos pelos quais nutrem grande reverência. Na escola está o saber, no banco o dinheiro. O adolescente não é trouxa. Em nossos dias, um sábio poderá ser considerado rematado idiota e o crápula endinheirado ser cortejado por deslumbrados. Como um boxeur prestes a ir a nocaute, o adolescente oscila das cordas do ser para as do ter, sangra, tem olhos inchados e só distingue nuvens opacas.
  10. O Código Penal não define a palavra crime. Em Alemão, crime é Verbrechen, derivado de verborgen, ou aquilo que se faz (ou se fazia) às escondidas. Verboten, de mesma raiz, quer dizer proibido. É só. Desse modo, se nada temos para dizer sobre crime, por que passamos grande parte do tempo em planejá-lo ou mesmo em executá-lo?
  11. O rabino defendia a pena de morte, como os nazistas o fizeram em seu tempo e  do mesmo modo que os assassinos de Wladimir Herzog ou Lampião. Estava na hora de o rabino cobrir-se de cinzas e ler ou reler Hannah Arendt. Agora o tempo passou. Sabia ele, por acaso, o significado da palavra verdade em Hebraico? Não-morte.
  12. Algum tempo depois, o rabino pilhava gravatas nos EUA: foi preso, pagou fiança etc. O fato é que o rabino cansou-se da Torá, da sinagoga, de Israel, dos xiítas, de Bush, de Lula. O rabino está fatigado. Há por aí algum Demiurgo de plantão disposto a deletar o programa para recomeçar tudo outra vez?auser

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