João, Adoniran e os gatos

Luiz Roberto Benatti

Em tempos imemoriais, você tomava o Expresso brasileiro no antigo bar da rodoviária da Rua Rio de Janeiro, à noite, e desembarcava bem cedo na Avenida Ipiranga, altura do número 1200. Os bons cafés continuavam fechados àquela hora. Com a bolsa à mão, subi a Ipiranga até a Barão de Itapetininga, dobrei à esquerda, tomei café na galeria da Livraria francesa, repassei uma vez mais os nomes das cidades italianas estampadas na parede, por ordem alfabética: Asti, Bari, Brecia, Catania, Foggia, Modena etc. Saí e caminhei até o Teatro municipal, depois até à mureta da Praça Rui Barbosa. Distraí por uns instantes, até que dei com dois malucos de pedra que corriam atrás dos 100 gatos que viviam no gramado da praça, entre o teatro e o Viaduto do Chá. O que estariam aqueles loucos matinais querendo fazer àquela hora? Súbito, pensei que devia conhecer pelo menos um deles, mas duvidei da memória visual. Todavia, eram eles – João Elias/Salim Muchiba e Adoniran Barbosa que há horas tinham acabado de gravar capítulos da Família trapo e, preocupados com o ócio aborrecedor, foram ao boteco – quem sabe se ao Paribar – para tomar  todas e mais 18 e, trêbados como sátiros de felinos, resolveram perseguir os bichanos.João e Adoniran não eram, como dupla, apenas humoristas, mas os reinventores do humor espontâneo.  

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