O fim do trabalho

Luiz Roberto Benatti

Rifkin previu o fim do trabalho, quer dizer, a longa história de que, ao incorrer em pecado, Adão e a companheira teriam de malhar de sol a sol para ter direito ao pão com o suor do próprio rosto, ao contrário do capitalista que acumula mais-valia com o suor do rosto alheio. Quem pode pode e quem não pode se sacode ou puxa pelo rabo o bode. É como se até o fim dos tempos os Céus providenciassem  forja e bigorna e um  vigoroso ferreiro para dar forma à roda da carroça, vaca para ser ordenhada no mangueirão, pão para ser assado no forno, crianças que madrugariam para o trabalho porque Deus, assim, iria ajudá-las. A roda da fortuna, ao girar, emitiria a música agradável aos ouvidos, do bem e o mal, do ócio e o negócio, de tal modo que tudo estaria no melhor dos mundos possível se o obreiro, ao esfalfar-se, garantisse o caviar dos beneficiários do Senhor, em tudo e por tudo semelhantes ao boss. Família feliz, mundo perfeito. Os humilhados e ofendidos providenciavam a prole que, enfileirada, ia da cozinha à calçada fronteira. A máquina do mundo desengrenou-se ou então inventou meios supimpas de gerar mais-valia sem fábrica ou lavoura de café: a bolsa, o Capital volátil. A criança que vinha ao mundo sem planejamento porém  impelida pela Razão econômica, na classe alta ou no living das classes medianas, passou a ser cultuada antes do parto: o celular garantiu-lhe a recuperação da memória da mãe num tempo anterior ao nascimento. Músculo só o da academia, Álgebra para o consumo, refrigerante para suavizar o canícula, celular para conferir no Facebook a estética corporal. Estamos alegres, sorridentes, acríticos. Na foto, mãe e filhos imigrantes: à esquerda, o mais velho, cuja cor preta do terno dá-lhe o direito de ordenar aos mais novos como se faz a roupa. Vieram ao mundo para o trabalho: os dias serão iguais, monotonamente iguais, até que se casem e reiniciem o ciclo. Todos eles mantém baixa a cabeça, não rumo ao solo, mas na direção das mãos obreiras que irá garantir-lhes feijão,arroz ou polenta e, quem sabe, bife magro uma vez por semana.  

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