A desconstrução do autoritarismo

Luiz Roberto Benatti

Em 2005, participei duma reunião de gabinete com o prefeito e seus pares, por deferência de Evandro Ceneviva. Não precisei dum segundo encontro para confirmar que as falas e as intervenções voltavam-se para o emissor sem ter encontrado receptor. Não se fez, no final do encontro, o registro duma proposição que fosse a soma do que ali tinha sido  dito ou pensado. Cada uma das exposições tendia ao infinito. O discurso tinha algo de patológico. Acima daquelas vozes tímidas, pairava a do chefe. Já vimos isso noutros períodos da história de meados do século XX, quando o nazifascimo traçou na prancheta o governo autoritário dos mil anos. Dado conseqüente do discurso e da prática autoritária foi o desmonte das secretarias, cujos condutores foram trocados e destrocados inúmeras vezes: água, educação, cultura, planejamento, informática,comunicação, assistência social, trânsito. “Tudo muda, tudo passa, neste mundo de ilusão. Vai para o céu a fumaça, fica na terra o carvão.”Wilhelm Reich, o rebelde discípulo de  Sigmund Freud, estudou a questão num livro precioso – A psicologia de massa do fascismo. Vale a pena lê-lo.Disse Reich: “A supressão da sexualidade natural na criança, em particular a sexualidade dos genitais,faz da criança um ser desassossegado, tímido, obediente, temeroso da autoridade,bom e integrado no sentido autoritário que paralisa as forças rebeldes porque a rebeldia está saturada de ansiedade (…)” O  governo anterior  da cidade tinha  baixa ou nenhuma tolerância à rebeldia e no dia-a-dia  administrativo sugou de cada um dos comandados a seiva genital, reduzindo cada um deles a uma casca  assexuada. Foi esse comportamento, e não outra coisa, que fez da cidade um passageiro da agonia, de repente e contra a sua vontade, embarcado na jardineira da desesperança rumo a Santa Clara dos Aflitos. Nós nos perdemos, não porque o prefeito desconhecesse   o modo como se arquiteta determinada obra, mas pelo fato de ele ter dado de ombros à política, quando, de fato,  e a seu modo, ele foi político. A onerosa canalização do Barro Preto decorreu de tomada de posição política, assim como a negligência no trato de todos os aparatos sociais da cidade. O acervo do que não se fez resultaria na instalação do Museu “Francis Bacon” das Boas Intenções.  A política, em certo sentido, é o modo como o administrador vende, na rua ou no palanque eletrônico, a sua façanha na prefeitura. AMN não poderá vendê-la e o ex-futuro sucessor desembarcou da jardineira antes mesmo de seguir viagem. Quanto ao leitor mediano, comprovam as inserções facetofacebúquicas que a mão digita o que a cabeça cheia de vento e desencontros rumina. Mau hoje, mais ou menos amanhã, maravilhoso na próxima semana. Vivendo e desaprendendo. Desejo aos prestimosos leitores pensamentos bem claros no decorrer de 2014, ano do centenário da Primeira guerra mundial, ampla batalha que desconfigurou o velho mundo.  

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