Melnan, a girafa hipocondríaca de Madagascar

Luiz Roberto Benatti

De modo amplo, os estados hipocondríacos caracterizam o medo irracional da morte: vou morrer no dia 13 ou 14, na próxima esquina, de gripe espanhola, ao acordar, porque sonhei com meu pai, porque não alinhei os sapatos no pé da cama.  A morte é como a roda dos cavalinhos no parque de diversões: gira e regira de maneira obsessiva, vai e volta, a eternidade que se arrume para encontrar um ponto de apoio no cosmo onde erguerei o pedestal da vida sem fim, sem decadência física ou mental.  Caso você vá ao médico e, depois de 3 mil e 900 exames, ele constatar que nenhuma causa aparente haverá para a sua ansiedade, você ficará uma fera com o clínico a ponto de chamá-lo de incompetente. Se você teme a morte, ele que trate de curá-lo. Se você olhar para a cidade pelos óculos do hipocondríaco todos os buracos são recentes e perversos e neles certamente você cairá, de onde, sentado no fundo mais profundo, irá parar no Japão. Em instante algum, o hipocondríaco irá pensar, de maneira hilariante, que o único problema do buraco é que ele acorda sempre com a boca para cima.Devo confessar: o atual prefeito tem uma fábrica de buracos meio clandestina. esiteiDevDTodos os buracos são madrugadores. Desde 1918, convivemos com os buracos que, infelizmente, tem de conviver conosco. Catanduva é feita de buracos ou, se você e o seu ex-professor de Geografia quiserem, de talvegues: morro acima, platô, morro abaixo, córrego, morro acima etc.Quando era menino, eu e meu amigo Oscar de Almeida Prado colecionávamos buracos na Rua 24 de Fevereiro, naquela época estrada boiadeira. Chegamos a ter 97 mil buracos. De buraco em buraco, nosso diafragma implica com o posto de saúde, com o alagamento, com a cannabis da Zé Nélson, com o foguetório da Rosa Filho, com o Carnaval que não se fez, com o Carnaval que se fez, com o desconto do IPTU.Serei contra sempre que o meu primo for a favor ou a favor quando o compradre de minha tia Amargurada da Silva for contra. Bons buracos no decorrer de 2014! ou, como disse Napoleão Bonaparte, “Do alto destas pirâmides, 65 mil buracos nos contemplam!”

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