Cave canem

Luiz Roberto Benatti

Por me aborrecer de minha nega,

decido-me: troco-a por um cão.

(Entre um currupaco e um vago olhar,

o papagaio bica o terno de clorofila.)

Poderia trocá-la breve pelo verde gaio

e sonhar nas florestas de ínvios caminhos.

Contudo, entre um currupaco e um olhar

vesgo, o gaio descasca o pedestal.

Ao cão reservarei uma bela ossada,

afagos, mil afagos, ungüentos pulicidas.

Ao jantar,irei tê-lo,cálido, aos pés,

e no bolso, íntegra e massuda, a carteira.

Ele me oferecerá a pata úmida, delicada

e sedosa – um universo de pelos;

sensato, distinguirá meu cheiro amigo,

entre mil outros,na espessa multidão.

E, à força de mentar, bem rápido dou

ao cão onírico um supremo corpo,

que, ao soltar-se do sono, abre os olhos,

cheira-me e arreganha a dentuça.

Arrepio caminho até minha nega, que o

chama, mima-o e o beija,triunfante. 

[Publicado no Folhetim de 18 de março de 1984]

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